Pedro Henrique Torres Bianchi

Negociação com credores: passo a passo para uma conversa produtiva

Diego Velázquez
Diego Velázquez
5 Min de leitura

Poucos gestores se sentem preparados para sentar à mesa com credores em meio a uma crise financeira, e Pedro Henrique Torres Bianchi, advogado e administrador de empresas especializado em reestruturação empresarial e recuperação de crédito, observa que essa insegurança costuma comprometer negociações que, tecnicamente, teriam boas chances de sucesso. Uma negociação bem conduzida depende menos de sorte e mais de preparação estruturada antes da primeira conversa.

A seguir, um roteiro prático para organizar essa etapa e aumentar as chances de um acordo favorável para os dois lados.

Mapear a real situação financeira antes de qualquer conversa

Antes de procurar qualquer credor, a empresa precisa ter clareza total sobre sua própria capacidade de pagamento: quanto pode oferecer hoje, quanto projeta gerar nos próximos meses e quais compromissos são inegociáveis diante do fôlego financeiro disponível. Sem esse mapeamento, qualquer proposta apresentada tende a soar genérica e pouco convincente aos olhos de quem está do outro lado da mesa, o que enfraquece a negociação antes mesmo de ela começar de fato.

Esse diagnóstico interno também evita promessas que a empresa não conseguirá cumprir depois, um erro que compromete a credibilidade em negociações futuras e reduz o espaço de manobra em rodadas seguintes. Números concretos, mesmo que modestos, pesam mais do que boas intenções vagas, especialmente diante de credores que já acompanharam outras empresas prometerem mais do que conseguiram entregar.

Priorizar credores conforme impacto e urgência

Nem todo credor precisa ser abordado da mesma forma ou na mesma ordem. Fornecedores essenciais à operação diária, credores com garantias reais sobre bens da empresa e obrigações com prazos mais curtos costumam exigir atenção prioritária em relação a dívidas menos urgentes ou com menor impacto imediato sobre a continuidade do negócio, já que uma ruptura nessas frentes pode paralisar a operação em pouco tempo.

Pedro Henrique Torres Bianchi
Pedro Henrique Torres Bianchi

Segundo Pedro Bianchi, essa priorização evita que a empresa disperse energia negociando simultaneamente com todos os credores sem critério, o que costuma enfraquecer justamente as conversas mais decisivas para a sobrevivência da operação nas semanas seguintes. Definir claramente essa ordem antes de iniciar qualquer contato também ajuda a alocar melhor o tempo da liderança, recurso tão escasso quanto o caixa em momentos de crise.

Apresentar propostas realistas, não apenas atraentes

Uma proposta bem-sucedida equilibra o que a empresa consegue efetivamente sustentar com o que o credor considera aceitável diante do risco de não receber nada. Propostas excessivamente otimistas, criadas apenas para convencer o credor no primeiro momento, tendem a desmoronar poucos meses depois, quando a empresa não consegue honrar o que prometeu, gerando um desgaste ainda maior do que se a negociação inicial tivesse sido mais conservadora.

Pedro Henrique Torres Bianchi pondera que credores experientes reconhecem rapidamente propostas pouco realistas, e que a transparência sobre limitações reais, embora desconfortável, costuma gerar mais confiança do que promessas exageradas sem lastro financeiro concreto. Essa transparência, paradoxalmente, tende a abrir mais espaço de flexibilidade do que discursos excessivamente otimistas sobre a recuperação do negócio.

Formalizar o acordo e manter o compromisso

Fechar um acordo verbal não é suficiente: toda negociação bem-sucedida precisa ser formalizada por escrito, com prazos, valores e condições claramente definidos, reduzindo o risco de interpretações divergentes no futuro entre as partes envolvidas. Essa formalização protege tanto a empresa quanto o credor, servindo como referência caso surjam divergências ao longo do cumprimento do acordo firmado entre as partes.

Tal como considera o profissional com experiência na administração de empresas em situação de crise e no contencioso empresarial, Pedro Henrique Torres Bianchi, o trabalho não termina na assinatura: manter o compromisso firmado e comunicar proativamente qualquer dificuldade em cumpri-lo é o que preserva a confiança construída e mantém aberta a porta para futuras negociações, caso sejam necessárias ao longo da reorganização financeira da empresa. Essa postura de transparência contínua, mais do que qualquer cláusula contratual, costuma ser o que sustenta relações comerciais mesmo diante de novas dificuldades.

 

Compartilhe este artigo