Felipe Rassi pontua que a Selic afeta a oferta de créditos estressados por dois caminhos principais, o custo do crédito e o comportamento de risco ao longo da carteira, pois juros elevados pressionam pagamento e renegociação, enquanto também encarecem o carregamento de ativos com incerteza de recebimento. Sob essa ótica, a Selic não cria NPLs sozinha, porém altera a velocidade com que situações de estresse se consolidam e a forma como instituições escolhem entre reter, renegociar ou ceder créditos.
Como sinal de contexto, o Copom manteve a Selic em 15% ao ano na reunião de 28/01/2026, com indicações de possível redução no ciclo seguinte, segundo cobertura de mercado. Nessa conjuntura, a leitura do mercado tende a oscilar entre manter prudência e antecipar mudança de regime, o que pode influenciar tanto a originação quanto a cessão de crédito.
Selic e formação de estresse na carteira de crédito
Juros altos ampliam o peso do serviço da dívida e dificultam a recomposição de fluxo em operações já pressionadas. Portanto, atrasos podem se tornar recorrentes com mais facilidade, sobretudo quando o devedor enfrenta queda de receita ou encarecimento de capital de giro. Além disso, renegociações podem ficar mais sensíveis, pois alongar prazo e ajustar taxa exige equilíbrio delicado entre viabilidade do devedor e preservação do crédito.
De acordo com Felipe Rassi, esse cenário faz a gestão de carteira valorizar segmentação e critérios, pois o custo do erro aumenta. Logo, ao invés de tratar o portfólio como homogêneo, a operação tende a separar casos de recuperação rápida, casos de reestruturação e casos em que a cessão de crédito passa a ser a alternativa mais racional, inclusive para preservar foco e liquidez.
Oferta de créditos estressados e incentivo à cessão
A oferta de créditos estressados no mercado secundário costuma crescer quando instituições buscam reduzir incerteza e reorganizar exposição. Assim, juros elevados podem intensificar a decisão de ceder carteiras, pois o custo de carregar risco, somado a custos operacionais de cobrança, pesa no balanço. Desse modo, a cessão vira ferramenta de gestão, ainda que a motivação varie entre bancos, fintechs e originadores com perfis distintos.

Segundo Felipe Rassi, a Selic também influencia a precificação, pois altera o custo de oportunidade e a régua de retorno exigida pelos compradores. Portanto, o desconto aplicado a uma carteira não depende apenas do atraso, ele incorpora custo de capital, tempo esperado de execução e qualidade do lastro, elementos que ficam mais visíveis quando a taxa básica permanece em patamar elevado.
Projeções de juros e reflexos no apetite do mercado
Expectativas de queda futura podem reorganizar comportamento. O Boletim Focus, por exemplo, pode influenciar a leitura de tendência, embora ele seja projeção e não decisão. Nesse contexto, quando o mercado antecipa cortes, parte do apetite pode migrar, pois risco e retorno passam a ser calibrados de forma diferente, tanto para crédito novo quanto para carteiras já estressadas.
Como frisa Felipe Rassi, o ponto importante é evitar leitura linear, pois queda de juros não significa automaticamente redução de NPLs no curto prazo. Muitas carteiras refletem contratos originados em outro ciclo, com perfil de risco já materializado. Assim, a Selic impacta tanto a “entrada” de novos casos quanto a gestão dos casos antigos, com efeitos defasados na recuperação de ativos.
Processo e governança para atravessar ciclo de juros
Em juros altos, ruídos ficam mais caros, pois a negociação tende a ser mais disputada e a contestação mais frequente. Logo, governança de dados, memória de cálculo rastreável, controle de versões e titularidade demonstrável ajudam a evitar travas que alongam o ciclo. Além disso, critérios de escalonamento evitam insistência improdutiva e reduzem custo por caso, ponto crítico quando a carteira cresce.
Por fim, Felipe Rassi sinaliza que o impacto da Selic na oferta de créditos estressados não é apenas estatístico, ele é operacional: afeta decisões de cessão, precificação e trilhas de cobrança. Nesse sentido, a taxa básica altera o pano de fundo do mercado, porém a diferença prática permanece na capacidade de estruturar e executar recuperação de ativos com menos ruído e mais previsibilidade.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez