Paulo Roberto Gomes Fernandes analisa a expansão do mercado mundial de obras subterrâneas como um sinal de mudança estrutural na infraestrutura, especialmente quando gasodutos, oleodutos e sistemas metroviários entram no mesmo ciclo de investimentos. Nos últimos anos, projetos de transporte de fluidos e de mobilidade urbana passaram a disputar espaço no subsolo, em busca de maior segurança, eficiência e previsibilidade.
Essa tendência ficou evidente em um grande congresso internacional realizado em Dubai, que reuniu empresas, especialistas e autoridades técnicas de cerca de 50 países, indicando que o eixo geográfico dessas obras vem se deslocando com força para a Ásia e o Oriente Médio.
Por que o Oriente Médio virou referência para túneis e espaço subterrâneo?
O congresso foi promovido pela International Tunnelling and Underground Space Association, entidade criada em 1974 para difundir conhecimento técnico e estimular o uso racional do subsolo em obras de infraestrutura. Ao sediar o encontro em Dubai pela primeira vez, a escolha sinalizou uma nova centralidade regional, já que o Oriente Médio passou a concentrar corredores subterrâneos voltados à energia, logística e transporte urbano sobre trilhos.
Ao mesmo tempo, a pressão por soluções que reduzam interferências urbanas e atendam exigências ambientais contribui para fortalecer projetos subterrâneos. Quando o crescimento populacional e a ampliação de serviços essenciais caminham juntos, o subsolo tende a assumir papel de “infraestrutura invisível”, capaz de conectar energia e mobilidade com menos conflito de uso do território.
Como energia e mobilidade urbana impulsionam a corrida por obras subterrâneas?
Em muitos países, o avanço das obras subterrâneas está ligado à busca de rotas mais seguras para transportar petróleo, gás natural e derivados. Em regiões montanhosas, áreas densamente urbanizadas ou zonas ambientalmente sensíveis, túneis podem reduzir impactos, evitar disputas fundiárias e diminuir riscos associados a traçados superficiais. Sob o entendimento de Paulo Roberto Gomes Fernandes, essa escolha costuma resultar de uma comparação prática entre custo total de ciclo de vida, viabilidade de licenciamento e controle operacional.
Dados apresentados no encontro indicavam um mercado global de túneis acima de 100 bilhões de euros por ano, com crescimento médio próximo de 7% ao ano, ritmo superior ao observado na construção civil como um todo. Paulo Roberto Gomes Fernandes menciona que a aceleração é mais visível na Ásia e no Oriente Médio, onde projetos de grande escala se multiplicam tanto para infraestrutura energética quanto para redes metroviárias e ferroviárias urbanas, sobretudo em corredores que exigem previsibilidade e menor interferência na superfície.

Quais avanços tecnológicos permitiram túneis mais longos e mais complexos?
Os avanços recentes na construção de túneis não se explicam apenas pelo aumento da demanda, mas sobretudo pela evolução tecnológica das tuneladoras, dos sistemas de monitoramento geotécnico e das técnicas de suportação estrutural. Esses progressos ampliaram significativamente os limites técnicos desse tipo de obra. Projetos em desenvolvimento na China, que incluem túneis com centenas de quilômetros de extensão, ilustram como a engenharia passou a operar em escalas que seriam consideradas impraticáveis poucas décadas atrás.
Nesse cenário, também ganharam destaque soluções especializadas para a instalação de tubulações em ambientes subterrâneos. Paulo Roberto Gomes Fernandes observa que a tecnologia desenvolvida pela empresa brasileira Liderroll, voltada ao lançamento e à sustentação de dutos em espaços confinados, tem sido aplicada como exemplo de inovação em travessias complexas no Brasil e no exterior.
O que o Brasil precisa observar diante desse cenário de crescimento global?
Enquanto o mercado internacional cresce, o Brasil historicamente apresentou menor volume de investimentos em obras subterrâneas do que seria esperado para a dimensão da economia, o que tende a afetar a competitividade logística e elevar custos indiretos. Paulo Roberto Gomes Fernandes nota que esse descompasso pode se tornar mais evidente à medida que a produção de óleo e gás, em especial no offshore, pressiona por soluções de transporte mais sofisticadas e por rotas com menor exposição ambiental e social.
Por fim, o cenário global sugere que túneis deixaram de ser exceção para se tornarem parte central das estratégias de infraestrutura, com ganhos em proteção física, menor interferência na paisagem e redução de custos associados a desapropriações, licenciamento e manutenção.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez